Quando era criança, minha mãe me lia várias histórias para eu dormir, uma mais fantástica e maravilhosa que a outra, ao som da voz de minha mãe, eu fui a diversos lugares diferentes, conheci Peter Pan, João e o pé de Feijão, O Mágico de Oz, A Polegarzinha, Os três porquinhos, Chapeuzinho Vermelho e tantos outros personagens interessantes, tantas histórias cativantes.

Quando cresci, as aventuras cresceram comigo, lembro de ter aprendido a ler aos 5 anos e minha mãe me comprava pequenos livrinhos, cheios de apoio visual, e eu ia lendo junto com ela, tirando as minhas dúvidas e aprendendo várias palavras novas. 

Aos poucos, os apoios visuais foram diminuindo, até que finalmente cheguei no primeiro livro totalmente sem figuras. Aquela foi uma experiência única para mim, aprendi a usar, de forma muito mais ampla, a minha imaginação, comecei a montar os rostos dos personagens dentro da minha mente e a vê-los interpretando as cenas do livro, como se fosse um filme.

Desde aquela época, eu soube que seria um apaixonada por livros por toda a minha vida e assim foi. 

Um dia no entanto, surgiu uma oportunidade de trabalho, a biblioteca da universidade estava contratando, me candidatei e consegui a vaga! Agora sou um bibliotecário, já trabalho há um longo tempo com isso, é tanto amor envolvido, eu ganho a vida organizando, catalogando e preservando livros, nas horas vagas, obviamente eu leio, a biblioteca é gigante e há tantos títulos incríveis aqui.

Eu, como todo bom leitor e bibliotecário vivo indicando obras para todo mundo. Vou colocar aqui alguns livros e autores memoráveis, para que vocês possam conhecer, todos eles eu li aqui da biblioteca.

Para começar, recomendo o grande mestre e também, meu autor favorito, Stephen King. O primeiro livro que li dele, foi O Pistoleiro da série A Torre Negra, o que me cativou nele foi a apresentação, em que King fala com você como se fosse um velho amigo, esse livro no entanto não me marcou tanto, mas como um primeiro contato eu gostei bastante. O segundo dele que li foi A Maldição do Cigano, esse livro foi devorado em menos de uma semana, achei maravilhoso e ali sim me apaixonei pela escrita do autor. Depois desse li O Iluminado, esse foi angustiante, tinha uma tensão que perdurou o livro inteiro e me fez querer ler página pós página, em ritmo frenético. Depois desse veio Doutor Sono e posso confessar? É meu livro favorito do King! Li no fim do ano, Tripulação de Esqueletos, com 22 contos arrepiantes, um mais interessante que o outro e já penso em ler outros títulos.

Para os românticos de plantão, aqueles cheios de histórias inspiradoras e amores cheios de desafios, recomendo Nicholas Sparks, li dele Um amor para recordar e Querido John, ambos livros lindos que já possuem filme e tudo, só é necessário uma caixa de lencinhos para acompanhar.

Uma autora de romances extremamente dramáticos é Danielle Steel, ela tem uma escrita incrível e seus personagens sofrem bastante, obviamente, você se debulha em lágrimas quase o tempo todo, mas vale a pena para quem gosta de sentir uma tremenda empatia com os personagens. Dela recomendo O Preço do AmorUm longo caminho para casaO Brilho da Estrela e Pôr-do-Sol em Saint Tropez.

Agora se você é apaixonado por romances, mas prefere os menos tristes e dramáticos, pode amar Nora Roberts, seus romances são mais leves e mais divertidos, desta autora recomendo Doce VingançaPaixão Obscura e o box do Quarteto das Noivas (Álbum de CasamentoMar de RosasBem-casados e Felizes para Sempre).

Se for fã de fantasia pode se aventurar nos universos de J. R. R. Tolkien que conta com inúmeros livros maravilhosos. Pode ser um bruxo com J. K. Rowling e a Saga Harry Potter. Viajar para Nárnia com C. S Lewis, Ir para Westeros com George R.R. Martin ou mergulhar no mar de livros inspirados em história de verdade com Bernard Cornwell

Há ainda alguns nomes Nacionais como Eduardo SpohrLeonel Caldela e Raphael Montes.

Se gosta de histórias de vampiros não pode deixar de conhecer  Lestat e as incríveis Crônicas Vampirescas de Anne Rice.

Agora se sua paixão são mistérios, recomento Dan Brown com obras cheias de referências reais, simbologia e ciência.


Poderia mencionar ainda tantos outros livros e autores cativantes, mas pararei por aqui.
Espero que gostem, das minhas indicações e se acaso precisar, estarei pronto a ajudar você a encontrar um livro que te faça viajar para lugares maravilhosos.



Dia dos Pais

Dizem que quando nasce um bebê, nasce uma mãe, mas o que muita gente se esquece, é que nesse dia, nasce também um pai. 
Meu nome é Matias, e eu tinha 35 anos quando meu filho nasceu. Foi uma semana antes do Natal, no dia 18 de dezembro eu conheci o Gustavo, meu filho, pesando 3,250 Kg medindo 54 centímetros, de olhos azuis e cabelo castanho, ali, eu percebi que o mundo tinha mudado drasticamente para mim.
Mas, vamos começar do começo, porque história não é história sem contexto.
Como disse, me chamo Matias. Conheci minha esposa na faculdade, ela cursava arquitetura e eu engenharia, uma amiga dela, que namorava um amigo meu, nos apresentou, começamos a sair, gostamos um do outro, namoramos e tudo fluiu até nos casarmos 4 anos depois. Eu já tinha 25 anos e ela 23, ambos formados e trabalhando, compramos um apartamento, mobiliamos e fomos viver a nova fase felizes. 
Decidimos curtir a vida de casados por no mínimo 5 anos, até pensarmos em ter filhos e mantivemos o plano. 
Quando decidimos que era a hora, batemos um papo e ela parou com o anticoncepcional, foi dada a largada, agora era só esperar a natureza seguir seu curso, mas parece que a natureza resolveu nos sacanear.
Elaine não conseguia engravidar, começou a ficar triste, comia pouco, lia muito, até que um belo dia não quis sair da cama, chorava muito e estava em estado lastimável. A depressão levou minha esposa, tentante há 3 anos, vendo as amigas de barrigão e as pessoas cobrando nosso bebê de bochechas rosadas, como se ter filhos fosse simples. Acho, de verdade, que as pessoas pensam que os casais vão até uma loja, compram um bebê e a dona cegonha trás ele depois de 9 meses, pendurado em uma fralda e deixa na nossa porta, como um presente. Ironias à parte, foi uma fase bem séria, quase a perdi, ela se afundou em uma depressão terrível devido, única e exclusivamente, a pressão que a sociedade colocava nela, eu queria ter filhos, mas o mundo não era assim cruel comigo, aliás acho que a coisa mais cruel que ouvi foi que, se Elaine estava "estragada" eu deveria arrumar uma mulher que pudesse me "dar" filhos, sim, eu nunca tinha notado o quão doentia soa essa expressão, "te dar um filho", como se ela tivesse uma obrigação moral para comigo. 
Enfim, resumindo a história, peguei minha esposa, levei ao psicólogo e ao psiquiatra, no começo ela não queria ir, não admitia a depressão e achava que a cura era ser mãe, mas isso não era a cura, isso era a consequência da cura, que ela entendeu só depois de quase 6 meses de terapia, quando a venda do "se você não ficar bem, não vai conseguir ser mãe" finalmente começou a fazer sentido para ela. (Eu dizia isso pra ela todos os dias, mas foi a Dra. Guerra que fez a ideia germinar em sua cabeça, o importante foi que entrou, não me importo com a fonte).
Então, quando ela estava se sentindo melhor, tomei outra atitude crucial, mudei de estado com ela. No começo ela reclamou muito, mas a empresa que eu trabalhava tinha uma filial pedi transferência, ela precisava sair daquele lugar cheio de gente toxica, que ficava envenenando ela, fazendo ela se sentir uma incapaz e destruindo a auto estima dela, exaltando a maternidade, esse processo durou pouco mais de um ano.
Até que eu acordei uma manhã e ela está se sentindo mal, ficou na cama aquele dia, eu cuidei da casa para ela descansar, mas a indisposição voltou no dia seguinte e isso durou uma semana, então ela resolveu ir ao médico e ele mandou ela fazer uma bateria de exames rotineiros, para ver como andava a saúde dela, mas eu, sempre muito desligado, dei a primeira bola dentro da minha vida! Comprei um teste de farmácia e usei a coleta de urina dela para fazer o teste, enquanto ela estava fazendo o café.
Deu positivo! Elaine estava grávida! Guardei o teste, joguei a urina fora e disse que bati sem querer e derramei a coleta, então na volta do trabalho, comprei uma caixinha, coloquei um body amarelo escrito "sou da mamãe" junto com o teste e dei de presente a ela no jantar, ela chorou feito uma criança, que ganhou o que sonhava na manhã de natal e acho essa analogia perfeita, porque ele nasceu uma semana antes do natal, chorei também, confesso.
Fiz ela guardar segredo, até passar o primeiro trimestre, não queria todo aquele veneno consumindo ela, já logo no começo da gravidez, de tanto insistir ela prometeu que faria acompanhamento, além da obstetra, também com uma nutricionista e uma psicóloga, não quis dar sorte pro azar, ser mãe deve ser uma barra e as pessoas cruéis como são, poderiam fazer dessa experiência maravilhosa para ela, um pesadelo.
Esperávamos ele para no máximo a primeira semana de Janeiro, mas ele nasceu no dia 18 de dezembro, apressadinho!
Eu participei de tudo, as consultas, ultrassons e o parto, apavorado, nervoso por ela, não vou dizer que trocaria de lugar com ela, porque eu sou um frouxo pra dor, certamente não aguentaria e admiro cada mulher nesse mundo, que aguenta um parto, porque não é a lindeza que as pessoas pintam não.
Quando eu o vi, pensei que estava assistindo um daqueles filmes, parecia mentira, era meu filho ali, pequenininho, sujo de sangue, chorando a plenos pulmões e como já mencionei, o mundo mudou drasticamente naquela hora, cortei o cordão e dei o primeiro banho, aquelas coisas de pai, pra eles sentirem que foram importantes de alguma forma, no fundo eu sabia que eu não estava fazendo nada perto do que ela tinha feito, ri sozinho pensando na expressão idiota, de que a mulher "nos dá filhos", elas não nos dão nada, se formos contar o  esforço emprenhado por ambas as partes, o filho é muito mais dela do que meu.
A enfermeira permitiu que eu levasse ele no colo para o quarto, Elaine chorou olhando pra ele enquanto mamava, eu também, ter o Gustava ali conosco era uma vitória, contra a depressão, contra a opressão, contra um mundo inteiro que quase a matou, contra tudo e, em pouco tempo de vida, ele se tornou a coisa mais importante do mundo pra mim, alguém por quem eu morreria e para nós homens, essa é uma frase tosca, porque são as nossas mulheres que, literalmente, quase morrem pra trazê-los ao mundo. 
Naquele quarto de hospital, olhando minha esposa amamentar meu filho, eu fiquei feliz, por ter ela, por ver ela feliz, por ver meu garoto forte e saudável e por saber, que quando ele completasse sua primeira semana de vida, seria natal e que pro resto da vida, eu teria que arcar com dois presentes! Brincadeirinha, quer dizer, eu pensei isso, mas foi apenas uma piada.
Ela recebeu alta da maternidade no dia 20, cancelamos a viagem para o natal, meus pais e os dela não conseguiram vir e eu bloqueei, todas as visitas de "amigas", até ele ter pelo menos um mês, pode parecer drástico, mas eu vi minha irmã reclamar, do quanto as visitas eram inconvenientes, querendo pegar no colo, dar beijinhos e uma infinidade de "conselhos", completamente desnecessários, mas correu tudo bem.
Eu fui o pai mais presente que conseguia ser, trocava as fraldas, dava banho e tentava revesar com ela as madrugadas insones, porque ela estava bem esgotada, ser mãe não é brincadeira gente, ser pai é muito mais fácil, cuecada de plantão, valorizem as mães que vocês tem em casa, as mulheres são uns belos de uns tanques de guerra, caramba, trocando umas fraldas e acordando algumas vezes na madrugada já estava me deixando esgotado, imagina dar de mamar de 3 em 3 horas...
Meu filho cresceu fortão, lindão e falou mamãe primeiro, incentivei ele a isso, porque ela merecia o mérito.
Eu não consigo descrever o amor que eu sinto pelo meu filho, ele é o centro, não faço nada sem pensar nele, no que ele pensaria do pai dele tomando certas atitudes, dizendo certas coisas, me preocupo em ser o espelho dele, porque afinal eu sou a primeira referência masculina que ele vai ter e é no meu comportamento, que ele vai se apoiar para crescer, então é responsabilidade minha, ensinar como ser um cara de bom caráter e a respeitar as pessoas, ensinar a ele que o papai pode ser um herói, mas a mamãe é que tem os super poderes, ensinar a ele os valores e entender que nem tudo nesse mundo está certo.
No fim das contas é visceral o vínculo de pai e filho, tão forte como o de uma mãe, mas muito diferente, porque faz parte da vida e pai e mãe tem papéis diferentes, são figuras diferentes e possuem espaços distintos, mas ambos importantes. Talvez ser pai, para o mundo, não seja grande coisa, não temos as cobranças que as mulheres tem, não se vê homens dizendo por aí quão mágico é ser pai, porque socialmente falando isso é uma "boiolice" e tem muito macho alfa, homem com "H" maiúsculo, que vai ler esse meu relato e dizer que eu sou um babaca, não me surpreende.
Eu sou um pai, um orgulhoso pai, de um garoto de 3 anos incrível, que todos os dias me instiga a ser um cara melhor.
Se você que está lendo isso for homem e me achar um babaca, saiba que o babaca é você, agora se você se identificou, saiba que estamos juntos nessa amigo. Se no entanto você for uma mulher e mãe, sinta-se aplaudida porque se existe um teste de resistência nesse mundo, é esse, e você passou com louvores e estrelinhas. Por fim, se você é uma tentante frustrada, pare de se cobrar tanto, relaxe e não deixe o mundo te engolir em neuras e frustrações!

É isso gente, desculpe se me estendi, fiquem bem.






A infância é uma fase interessante, não é mesmo? As pessoas querem muito, ter boas histórias para contar quando são crianças, querem ver o mundo brilhar de um modo especial, deve ser por isso que os olhos das crianças brilham mais.

Luís tem 34 anos de idade, é um cara que deu certo na vida, ele mora em um bom lugar, tem um carro razoável, um bom emprego e um monte de amigos simpáticos, com quem sai para tomar umas cervejas nos fins de semana, ele é uma pessoa de classe média, com um vida média, nem mais nem menos, apenas o comum, aquelas vidas que de tão normais não fazem os olhos brilharem, ele é um adulto, pura e simplesmente, sabe que o tempo de criança se foi já tem muito tempo e que voltar para lá é socialmente impossível, mas o que ele não sabe, é que a vida prega suas peças a todo momento e que ele terá sua dose em breve.

Ele acordou cedo naquela manhã, era um dia normal, tomou seu café com leite e canela, comeu seu costumeiro pão, com manteiga, queijo e presunto, tomou um banho e se arrumou para o trabalho, pegou o carro e partiu para mais um dia normal, em sua vida normal. O dia correu bem, mas na saída o carro resolveu que não ia ligar, chamou o guincho e em 20 minutos o carro foi rebocado para a oficina, sem opção, pegou o ônibus. Infelizmente, (ou felizmente) não tinha a menor ideia de que ônibus tomar, pegou um que achou ser o que passaria perto de sua casa, mas se enganou e quando percebeu, estava seguindo para longe de onde queria ir, puxou a campainha e desceu, decidiu que dali iria a pé mesmo, não era tão longe de casa afinal, calculou que 30 minutos de caminhada, em passos cadenciados, seriam suficientes para que chegasse em casa, a tempo de assistir ao jornal da noite.

Caminhou, mas ao virar uma esquina percebeu uma porta, ela era escura e velha, com uma espécie de folhagem, dando a ela um charme rupestre. Ele estranhou a porta, estava em um bairro moderno, com casas de estilos arquitetônicos contemporâneos, mas a porta parecia ter mil anos de idade, ela era estranha, como se não fizesse parte da paisagem, como uma daquelas figurinhas que se coloca em fotos, para ficarem divertidas nas redes sociais, mas mesmo assim ela estava ali e, aparentemente, ninguém notava ela, mas Luís a viu e seus olhos brilharam, como se tivesse visto um neon gigante em volta da velha porta. Ele chegou perto e nela havia uma placa, estava escrito “VOLTE A SER CRIANÇA”, ele estranhou a inscrição e passou longos minutos olhando para a porta, ela o havia hipnotizado de alguma forma, tocou a madeira, sua curiosidade crescendo, pensando no que encontraria, se girasse a maçaneta e entrasse pela porta. 

Tocou a maçaneta, girou e ela se abriu, fascinado nem se importou, entrou, deveria estar invadindo a propriedade de alguém, mas ele estava envolto em névoa na hora, tais pensamentos não lhe ocorriam, a promessa da porta era real, ele esquecera das preocupações de adulto e estava agindo feito uma criança encantada com um mistério.

Do outro lado ele viu uma sala, achou familiar, de algum modo parecia que ele já vira a sala, com os sofá marrom e um enorme xale de crochê azul o cobrindo, a mesa de centro, os bibelôs e velha televisão. Então percebeu, a boca se abriu em espanto ao ver a mulher que vinha em sua direção, o rosto bondoso, as sardas do nariz, os cabelos escuros com fios brancos começando a surgir, ela vestia uma saia azul que terminava pouco abaixo dos joelhos, uma blusa branca de malha, gasta devido ao apego que tinha, a pele começando a enrugar, devia ter uns 55 anos, uma senhora em um dia normal, ela tinha um jarro de água nas mãos e sobre a mesa havia um ramalhete de flores do campo coloridas, ela começou a colocar as flores no jarro, completamente alheia ao homem atônito que a olhava.

- Vó, sou eu Luís, vó! – ele disse tentando chamar a atenção dela, mas ela não parecia ouvir.

Cantarolava uma musiquinha alegre, ele se lembrava de sempre ouvi-la cantarolar aquela música, mas ela não podia ouvir ele ali, porque ela simplesmente não estava ali, aquela sala não podia ser real, mas era, a sala dela, tinha o cheirinho de coisa velha como ele costumava dizer, e ela estava ali em sua frente, colocando suas flores no jarro, as flores que ele mesmo lhe dera, podia ver o cartão ao lado das flores na estante, um cartão bobo e infantil, que ele pintara e escrevera “Te amo vovozinha linda do meu coração, que papai do céu lhe dê muitos aniversários”, mas papai do céu esquecera seu pedido na gaveta, porque aquele foi seu último aniversário, ela teve pneumonia naquele inverno, e uma parada respiratória a levara, ela tinha 57 anos e não 55 como ele se pensou quando a viu, ele tinha 5, já faziam quase 30 anos que ele lhe dera aquelas flores e aquele cartão. 

Ele sentiu a primeira lágrima cair, ela lhe contava histórias, ela ficava em casa com ele nos dias que sua mãe precisava sair para fazer compras ou pagar as contas no centro da cidade, ela fazia a melhor pipoca do mundo e sempre deixava ele repetir a sobremesa, era a vovozinha querida, mas ela morreu, e ele não teve a oportunidade de lhe dar seu novo cartão e as novas flores. 

De repente aquele dia voltou a ele, a mãe o levara para escolher algo para que ele desse a vovó, ele se apaixonou pelas flores, disse que eram perfeitas e ela as comprou, ele fez um cartão, a mãe o ajudara com as palavras e ele lhe deu com todo amor infantil que tinha. Quando ela viu as flores, ficou muito feliz e lhe deu um beijo no alto da cabeça.

Tentou tocá-la, sentir sua mão nos cabelos dela, queria abraça-la, queria que ela lhe fizesse pipocas, queria estar com ela, queria que ela estivesse ali de verdade. 

As lágrimas estavam descontroladas agora e ele começou a soluçar, as lembranças voltavam como uma torrente, ele se viu no hospital visitando ela, o rosto pálido, a voz pastosa, porém carinhosa, lhe dizendo para ser um bom garoto e para que obedecesse sua mãe. Nunca se despediu dela, nunca pode dizer adeus, era tão criança e não sabia, mesmo que tivessem lhe contado que nunca mais a  veria, que nunca ouviria sua voz de novo, os soluços ficaram piores e então o impossível, ou melhor, o ainda mais impossível, aconteceu, ela se virou e disse:

- Oh meu rapaz, por que está chorando? – o olhar dela era lindo, como um sonho bom e ele chorou ainda mais.

- Não chore, por favor, é de partir o coração. – ela parecia pesarosa.

- D... D...Des... Desculpe, é que... estou... tão triste... – conseguiu dizer entre os soluços.
- Triste por quê? – Perguntou ela.

Então ela abriu um sorriso largo, o seu melhor sorriso, aquele do qual ele se lembraria para sempre.

-Luís, não chore, eu tive que partir.  

- Vó, eu te amava vó, eu nunca te disse adeus... – ele baixou os olhos envergonhado.

De repente ela estava do seu lado, tinha cheiro de lavanda, sua loção preferida.

- Você não tinha como saber querido, não foi culpa sua, você era pequeno, não chore por isso.

- Sinto sua falta vó, sempre senti, queria que tivesse vivido para me ver crescer.

- Eu te vi crescer Luís, das estrelinhas do céu, você se lembra?

Ele levou alguns momentos para se lembrar, mas se lembrou, ele tinha 4 anos, e ela tinha lido uma história para ele em que o rei morria, ele lhe perguntou, para onde as pessoas iam quando morriam e ela lhe explicara, que as pessoas que amamos vão para o céu e lá, elas viram uma estrelinha que cuida de você por toda a vida, ele ficou muito satisfeito com a explicação e acreditou naquilo, com sua inocência de criança.

- Eu estive com você querido, eu sempre estarei viva no seu coração. – ela sorriu, ele sorriu de volta, mesmo com o rosto banhado de lágrimas.

- Obrigado vovó. – disse.

Ela o abraçou e ele sentiu a melhor paz que já experimentou, de olhos fechados envolvendo ela em um abraço aconchegante, quando abriu os olhos estava na cama de casa, eram 6h da manhã, tudo não passara de um sonho, ficou um pouco desolado, queria que fosse real, que tivesse visto ela, quando saiu de casa o carro estava na garagem como sempre e ele foi trabalhar, mas naquele dia o carro quebrou na saída do trabalho, o guincho chegou 20 minutos depois e ele pegou o ônibus, desceu no mesmo ponto como um déjà vu, mas andando naquela mesma rua, a porta não estava lá, desta vez Luís chegou em casa, triste, porque a vida real era monótona e no seu sonho, ele era como uma criança que revira a vó amada, jantou como sempre e foi se deitar, mas ao tirar a calça percebeu algo no bolso, tirou sentiu a lágrima solitária de gratidão correr pela face, era um cartão infantil, escrito “Te amo vovozinha linda do meu coração, que papai do céu lhe dê muitos aniversários”, cheirou, tinha cheirinho de lavanda.


Dia do Escritor

Escrever é uma arte. Cada um tem um processo diferente, técnicas diferentes que fazem a escrita fluir.

Cada um tem seu meio de jorrar suas histórias pelas mãos, de fazer despejar nas palavras aquilo com a qual sua mente está cheia e isso  é o sentido da escrita, fazer do mundo uma tela e tecer nela suas próprias realidades, imprimir cenários, pessoas e histórias. Mostrar para quem lê partes do mundo que habita em você.

Ser escritor é ser um tipo de deus no seu próprio mundo, criar e modificar as coisas, ditar as regras e os destinos dos seus personagens, mudar os rumos, destruir coisas, tentar corrigir erros e ensinar lições.

É incrível saber que esse poder está disponível a meros mortais como nós, fazer as pessoas rirem e chorarem, fazer com que o leitor ame e odeie, manipular as reações, fazer com que ele se choque, que pense e que reflita.

Escrever te faz invencível e ao mesmo tempo frágil, faz você querer provar coisas quem nem foram questionadas, te torna um ser vaidoso querendo ver o mundo conhecendo seu poder. E as vezes esse poder é o melhor que você tem dentro de si para compartilhar.

No entanto apesar dos louros não é fácil escrever. Enfrentar o mundo real é penoso. Sempre terá quem irá odiar o seu trabalho, ou odiar o personagem que você criou para ser amado e ele é o seu bebê! Essa é a parte difícil, aceitar que depois que você despeja seu mundo para fora ele não pertence mais a você e sim aos que irão ler, esse mundo passa a ser um bem comum, patrimônio seu que outros irão perdurar e cabe ao mundo decidir quanto irá durar.

Porém, se você fizer um bom trabalho, isso vai acontecer, as pessoas vão ler e disseminar, vão fazer valer o seu esforço, vão enaltecer e compartilhar os seus pensamentos e você viverá eternamente, porque o bom escritor é aquele que viveu uma boa vida e nela proporcionou aos outros partes de suas lembranças, seus medos e seu amor.

Então escreva, hoje e sempre, vão te amar e te odiar e se te odiarem pelos motivos certos saiba que isso também é sinal de sucesso. Bote tudo para fora, se os mundos surgiram em sua cabeça é porque você é a porta que irá tornar esse mundo real e como escritores somos os guardiões desta porta e nosso trabalho é apresentar ao mundo essas diferentes realidades.

Então escreva! E esteja pronto para arcar com todos os pós e contas desse árduo trabalho.

Feliz dia do escritor!


Tecendo destino

dia do amigo
 
Quando a gente nasce, acho que uma estrelinha brilha lá no céu, e te segue por toda a sua vida, cuidando de você e fazendo o mundo parecer um lugar maravilhoso de se viver. O que quase ninguém sabe, é que, as vezes, a estrela vem para a terra para cuidar de você mais de pertinho...

Era o primeiro dia de aula na 3ª série, eu estava nervosa, meus pais tinham acabado de se mudar para aquela cidade e eu não conhecia ninguém na escola nova. Eu cheguei na sala meio amuada, que nem um bichinho assustado e me sentei em um cantinho, no qual achei que ninguém me notaria, mas a Srta, Jones me chamou e me apresentou para a classe:

- Esta é Bianca, sua nova coleguinha. - disse animadamente, a todos aqueles rostos desinteressados. Senti o rosto em fogo, de tanta vergonha, mas fazer o que não é mesmo?

Depois disso, eu sei que a turma inteira resolveu me ignorar, no fundo isso foi bom, eu não queria ser vista mesmo. 

Após quase uma semana eu o conheci, ele era um menino de cabelo escuro, tinha os olhos cor de mel e usava uma camiseta verde com uma estampa do Hulk, estava sentado em um dos balanços do parquinho, seus olhos estavam avermelhados e inchados, como se tivesse chorado recentemente.

Cheguei perto e perguntei, porque ele parecia tão triste, ele me respondeu o seguinte:

- As crianças estavam zombando da minha mãe, porque ela não tem cabelos... - ele realmente estava chateado - ela tem uma doença e seus cabelos não crescem, por isso ela é careca, mas eles são muito cruéis.

Eu o entendi, sabia como as crianças podiam ser cruéis.

Eu perguntei então, se podia sentar perto dele e ele disse que sim, então sentei e começamos a conversar, o nome dele era Nicholas e ele era muito legal.

Depois daquele dia, a gente sempre ficava um tempão conversando, sempre nos demos bem e ele sempre estava comigo, com o passar do tempo conheci a família dele e ele a minha, nos tornamos grandes amigos, sempre juntos, inseparáveis.

Acho que um logo tempo se passou, uns 20 anos se eu não me enganei com as contas, depois de um tempo, parei de contar na verdade.

Sexta é aniversário dele e eu preciso comprar um presente, mas sempre fico em dúvida, o que dar a um nerd cheio de manias, que já tem de tudo? Camisetas, canecas e objetos decorativos é o que não faltam, ele coleciona muitas coisas, então eu sempre sofro pra achar algo novo que ele ainda não viu.

Andei meio shopping e não achei nada, até que eu olhei uma vitrine e encontrei o presente perfeito, entrei e comprei de impulso, mas deixei para embrulhar em casa. 

Peguei a caixinha e pensei um pouco, era muito legal, mas na hora eu não tinha entendido o significado. Ele poderia bem interpretar errado...

Depois de alguns minutos, eu percebi que, na verdade, eu queria que ele entendesse assim, seria legal e, bem, seria uma coisa natural, caso ele não entendesse desse modo, também não seria um problema. 

Com a questão resolvida, embrulhei o presente e esperei o aniversário dele chegar.

Ele sempre fazia um bolo e nós sempre saíamos pra comer pizza, era a nossa tradição de aniversário.

Depois que comemos a nossa pizza, resolvemos caminhar, a pizzaria ficava perto de uma praça bem bacana e fomos para lá. 

Finalmente achei que era hora de entregar o presente. 

Ele abriu um largo sorriso ao pegar a caixinha, e começou a abrir, estávamos sentados em um banquinho longe de tudo, quando ele finalmente chegou ao presente, parou como se algo o tivesse atingido em cheio, meio boquiaberto olhou para mim e disse:

- Bia, eu... Acho que não entendi bem... - baixou os olhos embaraçado, ele sempre ficava muito engraçado quando estava sem graça.

- Acho que entendeu sim Nick, só não quer acreditar. - disse sorrindo para ele.

Ele olhou a para o presente de novo, um par de colares da princesa Leia e do Han Solo com a sua frase mais famosa.

- Eu te amo Nick. - Disse recitando a frase escrita no colar.

- Eu sei - respondeu ele - Agora eu sei Bia... - disse quase em um sussurro,
Nos olhamos longamente e nos beijamos.

Ali começou a nova fase das nossas vidas, namorados/melhores amigos e só posso dizer uma coisa, nunca me arrependi desse presente!