COMO ME DESCOBRI


Eu nasci em uma pequena cidade de interior, era uma criança tranquila e quieta. Tinha 2 irmãs e um irmão, todos mais velhos, juntos éramos a típica família brasileira. 

Entretanto, neste modelo perfeito nascia eu com todas as minhas imperfeições para abalar a bela família de comercial de margarina. 

Desde criança eu costumava me sentir como se algo em mim estivesse errado, como se algo estivesse estragado e me fizesse ser alguém que não se encaixa, que não se entende com esse mundo e se sente uma peça de quebra-cabeças que simplesmente não faz parte da figura.

Eu sempre me senti assim e sempre foi doloroso o modo como o mundo me tratava, eu era alguém querendo me misturar, querendo passar despercebido e normal. 

Ao longo da minha infância e adolescência eu perdi a conta de quantas vezes me apontaram o dedo com apelidos maldosos, tentei ser normal, namorei, muito até, mas mesmo assim eu tinha aquele estigma de ser diferente do restante, de algum modo eu me destacava e todos me olhavam com desdém.

Eu tinha 17 anos quando a minha máscara de normalidade começou a ruir, meus pais começaram a me observar e eu simplesmente não conseguia mais fingir que estava tudo bem. Foi em um almoço de família que enfim as coisas desandaram. Minha irmã mais velha havia ganho um vestido novo, mas estava muito feio e eu comentei que achei o caimento ruim, meu pai se levantou com uma fúria desmedida, e gritou comigo dizendo que homem não tinha que entender dessas coisas, que ele já estava farto de me ver agindo como um maricas e que seus colegas de trabalho estavam falando que eu era “fresquinho” e que ele não ia me permitir dar essa vergonha para a família.

Eu disse a ele que estava enganado, que eu apenas tinha visto em um programa de TV e que eu nem gostava de moda ou coisas assim, havia apenas me expressado errado. Ele retrocedeu, mas dali em diante não confiou mais em mim e aquilo começou a me partir, eu comecei a ponderar e eu estava realmente tomando atitudes que pareciam estranhas para um homem, mas no fundo, já aos 17 anos eu sabia que eu nunca fui homem de verdade.

Eu fui para a faculdade, como era em outra cidade eu tive que morar sozinho e essa solidão foi o meu maior divisor de águas. No meu apartamento eu me peguei uma noite perdendo o sono pensando em como eu era diferente, lógico que eu não era gay, eu tinha amigos e eles eram só meus amigos, eram os caras que saiam comigo as vezes e eu me relacionava com mulheres, eu com certeza não era gay, mas a pergunta sempre voltava a me atormentar. No terceiro ano na da faculdade de engenharia eu desisti, eu odiava aquilo, meu pai era do ramo da construção civil e meu irmão era engenheiro, tinha uma empresa com um sócio e eu trabalharia com ele quando terminasse a faculdade, mas eu não aguentei mais e simplesmente desisti, debruçado sobre um livro estudando para uma prova que nunca prestei, eu simplesmente tranquei e decidi que ia seguir meu coração, eu queria ser designer de interiores, eu adorava observar espaços e torna-los mais bonitos, bem decorados e isso era apaixonante para mim.

Mas eu ainda fingi, no fim do semestre, contei para a minha família que eu tinha abandonado a faculdade, e meu pai perguntou o que eu iria fazer, a resposta o desapontou, ele ficou furioso, mas mesmo assim ele ponderou.

Infelizmente, digo infelizmente na época, porque hoje eu agradeço muito a esse acontecimento, eu conheci a pessoa que mudaria absolutamente tudo, quem finalmente me pegou pelos ombros e me fez escolher descer daquele muro alto e desconfortável que era a minha vida. O nome dele era Júlio, e ele era um cara da minha classe, ele tinha a minha idade e aos poucos nos tornamos amigos, costumávamos sair para beber e papear e as vezes ficávamos jogando baralho e videogame na casa um do outro, até aí estaria perfeito, mas um dia ele resolveu me contar uma coisa. 

Ele começou a contar um pouco da sua vida, e de todas as situações depreciativas que passou na escola, eu me identifiquei com aquilo, era familiar para mim, mas foi em um ponto que minha cabeça começou a rodar e meu mundo virou, ele estava contando que há pouco mais de um ano ele tinha procurado uma psicóloga e nas sessões de terapia ele tinha encontrado o problema que assolara sua vida, ele era um homossexual em negação. Segundo ele me relatou a psicóloga explicou para ele como isso era comum, homens e mulheres de famílias comuns com pais e irmãos, tendo como base um pensamento machista retrógrado e com medo de assumir sua condição, com medo de não ser aceito, ele me contou muitas coisas naquela noite, inclusive o alto índice de suicídios devido a alta pressão que é negar para si mesmo e ao mundo quem se é de verdade. 

Depois daquela noite as dúvidas começaram a me consumir, eu comecei a questionar e resolvi que queria mergulhar de cabeça e ver o que eu ia conseguir com aquilo, fiz testes, infinitos deles, dos mais sérios aos mais bobos e chorava por horas quando o resultado era “você é gay, está na hora de assumir”, eu tinha pesadelos e comecei a ter atração por homens, bem não exatamente, eu comecei a perceber que eu sempre sentira atração por homens. 

Aquilo estava me consumindo, o que eu faria? Não podia chegar na festa de natal e dizer “família eu sou gay” puxar um cara de traz da árvore de natal e ficar abraçado com ele dando pinta, eu achava tudo muito abominável e morria de vergonha de falar sobre esse assunto quando ele aparecia, afinal é o século XXI é normal as pessoas falarem abertamente sobre isso.

Eu tinha a ideia fixa de que eu poderia me curar, que os meus pensamentos eram mera perversão que eu estava sofrendo de uma forte perversão sexual, que eu estava imundo e sujo e minha reação foi banir o meu amigo Júlio do convívio e buscar uma igreja, rezar e pedir a Deus que me perdoasse por ser assim tão sujo, com toda a negação, veio a depressão, eu comecei a me afundar em um mundo só meu, lamentando minha condição. Aos poucos fui abandonando as festas, os amigos e por fim só trabalhava e estudava, quando visitava minha família eu fingia estar bem, apenas para em afundar no sofá e beber quantas cervejas ou drinks fossem necessários para que eu dormisse um sono sem sonhos no final do dia.

A vida foi horrível, houveram dias que eu quis morrer, mas eu não queria morrer daquele jeito, sujo como um maldito homossexual, isso porque infelizmente os pensamentos impuros com homens nunca me saiam da mente, eu não era mais confiável a mim mesmo, eu não ia mais a lugares com os amigos, e se eu me descontrolasse e cantasse um deles, que horror, que vergonha, que humilhação!

A minha salvação veio de onde eu menos esperava, era uma sexta à noite, o interfone tocou, era minha irmã mais velha, Aline.

Ela veio me visitar, entrou sentou e eu ofereci a ela um café, ela tomou e ficamos acho que uns 10 minutos calados com um peso no ar que eu nem sabia de onde veio. Quem finalmente quebrou o silêncio foi ela, disse apenas “eu amo você independente de qualquer coisa, mas me deixa te ajudar” aquela frase foi como uma última gota d’agua em uma barragem a beira de ruir e ali eu jorrei como um oceano de dúvidas, medo e desespero.

Ela me abraçou e eu chorei, ela esperou, não sei se minutos ou horas, mas ela esperou até o oceano secar e depois ela me ouviu, ela ouviu cada pequeno detalhe da minha vida e ela chorou comigo sentindo a minha dor, eu contei tudo a ela, eu não pensei, só precisava contar a alguém aquilo machucava dentro do meu peito.

Ela me disse a última coisa que eu esperava ouvir, ela me disse para eu assumir, para eu interiorizar que eu era um homossexual, que eu gostava de homens, que devia me relacionar com homens e que isso não dizia respeito a ninguém, que deveria aceitar que eu era assim e que enquanto eu não aceitasse eu seria como uma doença auto imune querendo me combater e morrendo aos poucos no processo. Eu disse que só queria ser feliz, que só queria ser normal e ela mais uma vez me surpreendeu dizendo que normalidade é apenas um conceito, que cada um cria o seu e que eu poderia ser um homem normal que ama outro homem normal e que isso não me tornaria uma aberração, que eu devia conversar com meu amigo Júlio, que eu devia procurar a psicóloga dele e me tratar, não para ser hétero, mas para me aceitar gay, que esse é o primeiro passo para eu sair do fundo do poço, que eu deveria aceitar e que só então eu poderia olhar pro mundo de cabeça erguida e dizer que eu não era uma abominação, que eu era humano, que eu podia e devia ser feliz e que isso não me fazia menos que os outros.

Ela foi embora e me deixou esperança...

No dia seguinte liguei para o Júlio e pedi desculpas, disse se podia vir até a minha casa e ele veio, conversamos muito, tirei muitas dúvidas com ele e por fim peguei o número da psicóloga e comecei a caminhar para centelha de luz que minha irmã me deu. 

A cada consulta eu me via melhor, eu me entendia mais e aos poucos eu me encontrei, Júlio esteve sempre comigo, me ajudou muito e não foi estranho quando eu percebi que a gente estava junto, que a gente era um casal e que isso me fazia feliz.

Contar para os meus pais foi tenso, mas a minha irmã segurou a minha mão e me defendeu das grosserias e ameaças, meu irmão queria me bater, minha mãe só chorava e minha outra irmã queria que eu me tratasse, mas meu pai era o problema, me jurou de tudo ,me bater, me deserdar e todas as demais grosserias até que, por fim, após escutar calado tudo que ele dizia eu me lembrei de uma coisa e só respondi isso “Pai, você não queria que eu fosse homem? Pois bem, é preciso ser muito homem para olhar nos seus olhos e dizer que sim pai, eu sou um homossexual, mas eu não sou uma aberração, nem sou imundo, eu sou homem o suficiente para olhar as pessoas de cabeça erguida, eu sou mais homem que muito machão por aí, pai! Então não venha me chamar de maricas, porque maricas não olham para o próprio pai com segurança e assume algo assim.” Ele ficou chocado, estava bravo, mas ele não conseguiu reagir.

Confesso que demorou, mas ele finalmente entendeu, eu respeito o fato dele não gostar de me ver junto com o Júlio, de mãos dadas trocando beijos, mas ele respeita nós dois como casal, o restante da família também aceitou, hoje eu sou o cara mais feliz do mundo porque hoje eu posso ser eu mesmo, sem medo do que vão dizer e isso não tem preço.

Atenciosamente
Felipe dos Santos

Fonte da Imagem


2 comentários:

  1. Que história mais linda!!! Realmente ser quem você é e não ter medo do que outros irão falar é maravilhoso 🥰❣️

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aceitação sempre! Acho esse conto muito lindo, amei escrever e ser de certa forma a voz de quem passa por isso.

      Excluir

Oi pra você! Leu o post? Então deixa a sua opinião, gostaria muito de saber o que você achou >.O