PARA COMEÇAR O DIA



As luzes banhavam o quarto, o sol havia feito uma entrada triunfal e se esgueirado pelas cortinas de Lucy, ela ficou na cama olhando as cortinas farfalharem com a brisa que entrava junto com o sol.

Era um domingo, ela poderia ficar mais tempo na cama, se render a preguiça, relaxar e esquecer por um dia as coisas com as quais costumava se preocupar.

Ali na cama sozinha, deitada, olhando para as janelas abertas ela se lembrou de Henrique seu noivo, aliás seu ex-noivo, ela havia rompido com ele 6 meses atrás, pelos motivos certos para ela, porém errados para ele. Ainda se lembrava de como fora dura consigo mesma pensando no homem que havia abandonado, uma pessoa incrível, mas que jamais poderia seguir em frente com ela, os sonhos não batiam, as cabeças eram diferentes e ela sabia que muito embora a frase clichê de que os opostos se atraem continha uma verdade que não estava inclusa, eles simplesmente não permanecem juntos, no fim das contas um sempre irá tentar subjugar o outro e ambos viverão infelizes para sempre.

Henrique era bom para ela de várias formas, era carinhoso, romântico, bem humorado, gostava de muitas das coisas que ela gostava, mas era no fim das contas um homem fadado a ter uma família, com esposa e filhos, cerca branca e casa de venezianas em um bairro legal, daqueles que sonham com a agitação de uma rotina caseira, com a mulher fazendo panquecas para o café da manhã antes do trabalho enquanto os filhos tomam leite achocolatado comendo cereais. A mulher que faz o jantar e leva as crianças para a escola antes do trabalho, aquele cara que aprecia essa doce vida, que quer viajar para lugares com praias para que as crianças façam castelos de areia, ou que sonha em acampar nas férias dirigindo um trailer e fazendo fogueiras para marshmallow.

Ela sempre soube que ele era assim, esperava que com o tempo os sonhos dele a contagiassem, mas não contagiaram, com o anel veio o ultimato, no maior estilo “ou vai ou racha” e rachou, partiu Lucy e Henrique ao meio, partiu o amor, corações e sonhos. 

Ela é decoradora e seu sonho é viajar o mundo, visitar lugares exóticos, conhecer culturas e se inspirar sempre para fazer de seu trabalho o seu mundo. Ela jamais sonhou com as cercas brancas, com os cafés da manhã em família, com as férias no trailer nem com os castelos de areia na praia, ela achava essa vida uma forma de desperdiçar quem ela era, desperdiçar seu talento, sua vida, sacrificar uma carreira em detrimento do sonho alheio, não seria justo com ela, assim como não seria com ele porque ela o culparia sempre por ter arrancado o futuro brilhante das mãos ansiosas dela com um anel.

Na hora ela aceitou, estava apaixonada e hoje ela se perdoava por aquele sim, porque se tomam decisões tolas quando se coloca o coração na frente de tudo, mas ela pensara e vira que um dos dois não seria feliz, imaginou a vida de casada, imaginou o primeiro teste de gravidez, Henrique arrasado e ela exultante vendo que dera negativo, viu as lágrimas de ambos os lados, as pequenas grandes concessões e viu o fim, o grande fim que era ela sucumbindo por falta de apoio, porque ele tinha o mundo inteirinho do seu lado, enquanto ela era a grande minoria, com os anos a pressão viria de todos os lados “e os filhos?” “a família vai crescer quando?” “como assim não quer filhos, seu marido sabe disso?” ela ia se sentir sufocada, ia acabar tendo filhos, a cerca branca chegaria e toda a baboseira de rotina, férias e castelos de areia se imporiam em sua vida e ela estaria totalmente perdida, totalmente tomada. Talvez ela aprendesse a ser feliz assim, mas no fundo sabia que o “e se” a mataria volta e meia e ela se arrependeria, talvez não o tempo todo, mas por breves momentos esse fantasma tolheria toda sua felicidade e ela se sentiria vazia, no fim das contas não teria valido a pena, Henrique era bom para ela, mas ela não poderia viver assim. Seria injusto com ele e com ela, por isso os motivos foram os certos, mas para ele não, porque ele era um romântico e jamais entenderia como uma mulher em sã consciência poderia se negar a tal destino, se negar a ter uma família, como isso poderia ser tão impeditivo, mas isso no fim nem a magoou, apenas a fez se certificar que romper era o certo, que se ele não podia ver o futuro como ela, era porque ele talvez não devesse estar nele, fim de papo.

E já haviam se passado 6 meses, ainda assim ela não se arrependia, sentia falta dele, mas não do que ele representava, aprendeu a conviver com isso e dar valor para as pequenas coisas. 

Era um domingo bonito e ensolarado, ela estava na cama e deviam ser umas 11 horas da manhã, ela sentiu vontade de um café, mas a preguiça ainda a prendia na cama, ela tinha escolha, essa era a melhor parte, podia levantar e tomar um café se quisesse ou virar para o lado e dormir de novo até a uma da tarde, podia tomar um banho, fazer panquecas ou comer cereal, podia ver TV, ficar de pijama o dia todo, ler, fazer projetos de decoração ou planejar as férias em Israel, poderia fazer o que quisesse e isso era perfeito, era assim que ela sonhara, era assim que ela seria feliz, se no curso da vida um cara entrasse para fazer parte disso ela teria um parceiro, mas esse cara não era o Henrique.

Sorriu com a afirmação, era a primeira vez que ela dizia a si mesma isso, as vezes pensava que ele poderia mudar de ideia, que ele poderia assumir os sonhos dela para si e eles poderiam ser felizes juntos, mas era uma sombra que ela guardaria, “e se” ele assim como ela sucumbisse, mas não fosse feliz? Como seria ver os negativos no teste de farmácia e ficar feliz por fora e arrasado por dentro? 

Um sorriso se formou em seus lábios, ele a acusara de ser egoísta, de estar agindo feito uma garota mimada que não quer perder seu mundinho perfeito, mas agora ela sabia que não era verdade, ela não era egoísta, apenas sincera, ela olhou para o horizonte e não gostou do pôr do sol, ela decidiu que não gostou e assumiu isso, era uma verdade, e seria desonroso e com certeza, muito mais egoísta se tivesse decidido mentir, dizer que achou lindo e que era isso que ela queria. 

Se tivesse aceitado seguir em frente teria estragado não só a própria vida, mas a dele e talvez as de todos os filhos que teriam, ou não, de algum modo, no fim alguém estaria ferido, não seria justo. Ela o amava, isso também era verdade, mas amor não sustenta um casal, não sustenta uma família, amor apenas une, como o cimento que junta os tijolos de uma construção, pode ser maravilhoso no começo, mas se aqueles tijolos não fossem feitos para serem postos juntos seria um laço doloroso e triste e separá-los traria danos, isso se não acabasse por destruir a ambos e talvez abalar toda a longa construção.

Assim, ela por fim decidiu se levantar e tomar o seu café, poderiam ser muitos pensamentos para se ter quando se acorda e vê o sol batendo nas janelas, mas esse era seu ritmo, era quase sempre assim, as melhores meditações de Lucy eram logo depois de acordar, era sua dose de racionalidade para começar o dia e era tão parte dela quanto todo o resto das pequenas manias que tinha, era sua rotina e ela achava melhor do que o lindo café da manhã em família de filme.


2 comentários:

  1. Como eu amei esse texto!!! Parei pra refletir aqui que a vida é isso mesmo, no final não há possibilidade de estar em um relacionamento se as duas pessoas tiverem objetivos diferentes na vida! Enfim, seus textos sempre me fazem refletir haha beijos amiga

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    1. Sim, as pessoas tem que caminhar juntas, se cada uma quiser ir pra um lado diferente não dá certo nem como todo amor do mundo!

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