A armadilha de Rogdarin

A armadilha de Rogdarin



Reza uma lenda antiga, que diz que os espíritos retornam ao mundo dos vivos na madrugada de todos os santos, neste dia as almas andam livres do véu que separa o natural do etéreo. Naquele ano Louise havia se preparado, ela conhecia as lendas e esperava ansiosa ver o levante dos mortos, o que ela não sabia era de Rogdarin, um espírito mau que viveu há séculos e vinha ao mundo naquela noite em busca de crentes para levar almas dos vivos ao mundo etéreo. 

Rogdarin em vida foi um poderoso bruxo, suas magias eram evocações malignas cheias de dor e sofrimento, quando enfim foi morto por clérigos da santa igreja, jurou voltar sempre na madrugada dos mortos e levar sempre um tributo.

Aquele ano foi o mais memorável, Louise andava pelas ruas com seu vestido negro em busca de almas verdadeiras imersas no mar de rostos vivos, encontrou inúmeros, mas nenhum aparentemente era real até se deparar com o homem loiro de olhos azuis encostado displicentemente em um muro. Algo nele lhe chamou a atenção, ele possuía um enigma no olhar e o meio sorriso era como um convite. Quando a viu ele se desencostou do muro, era alto e bonito, por algum motivo escuso, Louise se lembrou de Dorian Gray, do livro de Oscar Wilde lido na adolescência, ele cheirava pecado, mas sua beleza era tão tentadora que não conseguia se conter, sorriu para ele e ele lhe sorriu em resposta.

- Perdida senhorita? - disse com o timbre de voz mais belo que Louise já ouvira.

- Não, apenas passeando. - respondeu.

Ele lhe estendeu um braço e ela de bom grado aceitou, saíram juntos pela noite praticamente em silêncio, ela estava enfeitiçada, como se houvesse algo naquele homem do qual não pudesse fugir, sentia-se como se toda a sua vida tivesse esperado por ele, como se ele por vezes tivesse lhe chamado e agora ela podia vê-lo próximo e apreciar sua companhia, como se um sonho pudesse ser real, caminharam longamente pela noite, trocaram poucas palavras, mas era como se se conhecessem há muito.

Enfim a noite estava chegando ao fim, as primeiras nuances no céu começavam a propor que o sol se movia para enfim chegar. Ele a olhou longamente e ela sorriu, ele tocou seus cabelos e ela fechou os olhos para sentir melhor o toque.

- Cara, gostaria de vir comigo? - Ele perguntou, naquele timbre avassalador.

- Claro... -  Ela disse sem ao menos se dar conta.

- Então venha. - ele segurou sua mão e ala se deixou conduzir ainda de olhos fechados. 

Quando os abriu o lugar onde estavam já não mais existia, mas uma terra árida e cinzenta, o céu nada mais era que uma mancha escura como fumaça indissipável, Louise ficou horrorizada, o homem a sua frente nada mudara, ainda era lindo e charmoso, mas seu sorriso agora adquirira um tom cruel.

- Eu não entendo. - conseguiu balbuciar.

- Meu nome cara, é Rogdarin, em vida fui um dos maiores bruxos que já existiu e cada ano nesta mesma noite eu vou ao mundo dos vivos arrecadar um tributo, séculos se passaram e já possuo muitos, mas ainda muitos faltam, no dia em que completar minha coleção, poderia irromper deste lugar miserável e finalmente me reerguer, tentar contra a descendência daqueles que me puniram e infringir na terra o domínio do meu senhor. Sinta-se honrada cara, pois você nada mais foi, que uma de minhas aquisições.

Louise chorou e gritou, mas os outros ali aprisionados há muito já haviam desisto da dor, eram como seres vazios andando a esmo em um lugar desolado. A tristeza se abateu, jamais veria sua família de novo, iam se preocupar sem saber o que havia ocorrido, a tristeza e a desolação tomou conta dela. De tudo tentou para sair, mas nada deu certo e lá permaneceu com sua dor.

Naquela manhã uma grande aglomeração estava presente em frente a um muro uma jovem fora encontrada morta em um vestido negro, com a chegada dos pais finalmente puderam identificá-la seu nome era Louise Charmelier e havia morrido de causas completamente desconhecidas. Nunca se soube o que houve e Louise nunca mais pôde rever os vivos, nem mesmo na noite em que o véu se desfaz pois a magia de Rogdarin não assim lhes permitia.

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