A Jornada

A Jornada

A vida foi severa comigo. Ela me ensinou da forma mais difícil e árdua a ser quem eu sou. Foi doloroso, penoso e intenso o caminho até aqui.

Eu poderia fazer um resumo ou escrever minha autobiografia e ganhar uma grana, porque muita gente ama histórias tristes e dramáticas. 

Infelizmente vou decepcionar estas pessoas pois o foco aqui é dizer que não são os trechos que fazem uma jornada, mas o caminho todo, como um grande bloco, trechos muitas pessoas percorrem, mas cada caminho é único e cada jornada tem suas peculiaridades próprias.

A verdade é que a minha vida foi uma jornada, uma jornada digna de Oscar de melhor roteiro original, mas que perderia feio em outros quesitos.

Eu venci a morte! É sério, eu vi a morte e fiz uma bela banana pra desgraçada e voltei para o mundo dos vivos, aliás eu fiz isso tecnicamente no ato que me tornou um ser independente e vivo. Trocando em miúdos, foi um parto difícil.

Eu nasci com vários problemas, minha mãe achava que eu morreria na primeira semana de vida porque eu era um bebê frágil. Ao longo do tempo eu fui me fortalecendo.

Meu pai morreu 4 meses antes de eu nascer e minha mãe se suicidou quando eu tinha 9 anos, ela não tinha ninguém, ela tinha a mim, mas uma criança de 9 anos que consumiu muito da energia dela por ser uma criatura frágil em desenvolvimento não é um remédio muito útil para uma mulher com depressão profunda, que perdeu o marido que amava de forma brutal, enquanto estava grávida.

Então eu fui pra adoção e uma porção de coisas ruins, bizarras, tristes e dramáticas aconteceram, pode usar a imaginação, vai ser mais divertido que saber a verdade.

O que importa é o final, o ponto de ruptura do ciclo carmático do meu ser que é o hoje, o agora, quando nada de extraordinário aconteceu, mas fez meu dia ficar sensacional. 

Nesse minuto que eu estou escrevendo isso, eu estou tomando um chá, na minha casa e eu não sou mais uma pessoa que sofreu horrores, mas uma pessoa normal, com um emprego estável, uma casa própria, um carro na garagem, um gato em cima da cama. Uma pessoa comum, como todas as que você encontra na rua, no trabalho, no ônibus, shopping ou em qualquer outro lugar. 

Eu sou a prova que depois da tempestade vem um dia de sol, as vezes não depois de cada tempestade, as vezes depois de várias tempestades, as vezes depois de muitos anos de tempestades a fio, mas este aqui é sem dúvida meu dia de sol e sinceramente eu não faço ideia se amanhã a previsão do tempo da minha vida vai ser sol, chuva, nuvens, granizo, meteoros ou ácido, o que importa é que hoje faz sol e eu tenho a calmaria. 

Eu passei poucas e boas e tomar um chá na minha casa em uma terça a noite é a coisa mais tranquila que eu poderia sonhar.

Eu sei por onde eu passei e quanto isso me moldou, mas quero apenas dizer a você que está aí lendo, que há um modo, as vezes você não vê de cara, as vezes você não acha o modo certo por um longo tempo, mas ele aparece e esse modo é a brecha que faz você tomar uma injeção de felicidade e continuar. Eu sinto muito pela minha mãe não ter conseguido suportar tempo suficiente pra encontrar a brecha dela, talvez isso a tivesse ajudado, mas cada um faz sua jornada e eu não poderia mudar nada do que se passou. Aliás, eu nem gostaria, eu acho que viajar no tempo e mudar coisas faz mais mudanças do que deveria, se minha mãe tivesse vivido eu talvez não estivesse aqui com a minha xícara de chá na minha terça absolutamente normal, talvez eu estivesse aqui, mas esse não fosse mais meu dia de sol, talvez meu dia de sol já tivesse ocorrido há muito tempo, ou ainda fosse ocorrer... 

Caramba! Eu me perdi na teoria. Desculpe por isso.

O que importa é olhar pra traz e ver tudo que aconteceu com olhos de poeta, tinha alguém que me dizia isso, devemos ver a vida com olhos de poeta, talvez seja o modo que falta pra se encontrar a brecha de felicidade que mantém tudo no lugar, talvez não, experimente, sei lá.

O que eu acho é que fórmulas são úteis para coisas tangíveis, mensuráveis, mas não para coisas insubstanciais como é a vida, não existem fórmulas, por isso não se deve analisar os trechos, porque quem vive de trechos não aprende, porque passa tempo precioso analisando o trecho e esquece que tem muito do caminho a percorrer e se perde.

Então é isso, eu acho, de uma pessoa que passou uma jornada mirabolante, cheia de trechos malucos e complexos, que depois de tudo acha que o ponto ápice de sua vida é tomar uma xícara de chá em uma terça a noite... Sente na janela do trem colega, aprecie a vista e leve sempre roupas e calçados para todas as ocasiões porque nesse jornada chamada vida, você nunca sabe do que vai precisar, mas confesso que é divertido juntar bagagem, só tome cuidado pra não se tornar um acumulador, porque bagagem demais pesa e atrapalha a jornada.

Boa viagem e fique bem, espero que encontre seu dia de sol em breve!


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