Não como você espera - #EscritaCriativaBLM - Desafio 17

Não como você espera


Chegou em casa após um dia cansativo de trabalho, tomou seu banho, jantou e deitou para dormir. Há meses era essa a rotina, o ritual diário, mecanicamente era assim, todas as noites. Nos fins de semana, costumava se distrair lendo e assistindo filmes, além de cuidar dos afazeres domésticos, acumulados durante a semana. O silêncio era seu reino e nada o abalava, nem a TV, nos dias de semana, era ligada para manter a paz e a sensação de solidão, agora tão bem vinda.

Tiago era um homem interessante, bonito e educado, tinha alguns colegas de trabalho a família morava longe, o normal era ser só, pelo menos desde o incidente, quando Patrícia se foi, um dia como qualquer outro, um engavetamento e ela estava lá. Por semanas, tentou entender o motivo daquilo, por que ela, por que naquele dia resolveu pegar uma rua diferente, indo para o trabalho e por que ela não sobreviveu como os outros 8 feridos no acidente? Ela foi a única que morreu naquele dia, não lhe parecia justo, mas a vida tinha que seguir, ele tinha que seguir em frente e seguiu.

Aquela noite era especial, eles iriam completar 5 anos de casados no dia seguinte, ele não ia trabalhar naquele dia, estava com horas pendentes e tiraria uma folga para ir ao cemitério levar flores para ela.

Tiago apesar da perda, estava se saindo bem, conseguia viver sem ela, sentia uma saudade imensa, mas acreditava que ela estava em um bom lugar e queria que ela fosse feliz, que não ficasse preocupada com ele, estava seguindo em frente como um ato de bravura, uma forma de honrar a sua esposa amada, para que ela ficasse bem.

Era meia noite, quando o silencioso apartamento foi tomado por um som, ao abrir os olhos, ele não conseguiu identificar de imediato o barulho até estar desperto, então notou que o som vinha da sala, ele levantou da cama e foi até lá, deparou-se então com o telefone tocando, ficou alguns segundos parado, pensou que estava dormindo ainda, mas o som parecia real, então o tirou do gancho e atendeu.

- Alô? - disse ele

Do outro lado se ouvia um som forte de estática, um chiado irritante.

- Ti? - um sussurro surgiu em meio ao chiado.

- Quem está falando?

- Não tenho tempo... Desculpe...

- Quem está falando?

- Eu amo você...

Essas palavras o acertaram como uma flecha, suas pernas amoleceram e ele se sentou no sofá, os olhos encheram-se de lágrimas, ficou mudo com o choque.

- Desculpe... Não pude ficar... - a voz era doce, tinha um pesar tão grande, que fazia o coração de Tiago se despedaçar completamente.

- Por quê? - conseguiu perguntar entre as lágrimas.

- Precisei.. Não pude ficar, eles vieram me buscar e eu tive que ir... Desculpe... 

A dor de ouvir a voz dela, era avassaladora, o coração estava descompassado, achava que estava sonhando, mas no fundo não queria estar, era seu pequeno milagre, poder ouvir a voz dela, era incrível queria se agarrar ali, naquele instante, queria ter o poder de parar o mundo, para nunca mais deixar de ouvir aquela voz que ele tanto amava.

- Amo você Pat. - A voz saiu completamente trêmula e emocionada.

- Também amo você...

- Por que me ligou?

- Queria me despedir, preciso seguir...

- Para onde vai?

Ela não respondeu e ele entendeu, que talvez ela não pudesse responder.

- Por que precisou partir?

Mais silêncio

- Desculpe. - disse por fim.

- Preciso ir...

- Vamos nos encontrar novamente?

- Não como você espera... Adeus Tiago, cuide-se bem...

- Adeus amor, fique bem..

O chiado que esteve presente todo o tempo sumiu, de repente a linha ficou limpa, ele passou um tempo olhando para o telefone, ainda chorando, por fim recolocou ele no gancho e foi tomar água, tomou uma pilula calmante de uso fitoterápico, que Patricia sempre tinha no armário do banheiro e foi se deitar.

Naquela noite, ele sonhou com ela, sonhou que ela estava em casa sorrindo e havia algo mais na cena, mas ele não conseguiu se lembrar o que era quando acordou.

Tomou o café da manhã, foi ao cemitério, deixou flores para ela no túmulo, mas não chorou, ainda tinha a vívida de lembrança do telefonema e aquilo, de alguma forma, o confortou.

Quando voltava para casa, passou por um parque e notou uma aglomeração, estacionou, desceu e viu que era uma feira de adoção de animais, haviam cães e gatos esperando receber um novo lar. 

Ele então caminhou entre os diversos cercados, vendo os rostinhos esperançosos por um novo dono, foi então que percebeu, em um canto sentada olhando para ele tinha uma cadelinha de pelo claro, ela tinha os olhos mais serenos que ele já vira em um cão e olhava diretamente para ele. Sem perceber, caminhou na direção dela, enquanto avançava os olhos da cadela o seguiam até que chegou, se agachou perto do cercado e a olhou nos olhos.

- Gostou dela senhor? - Uma moça, com a camiseta da ong organizadora perguntou.

- Gostei. - respondeu simplesmente.

- Que tal levar essa princesinha para casa hoje? Ela já tem as vacinas, está vermifugada e tem 5 meses de idade. 

- Acho que vou levar sim moça.

- Ótimo, vou pegar o formulário de adoção!

A moça voltou com o formulário, ele preencheu, ganhou um sachê de ração de brinde, pegou a pequenina no colo e a levou para o carro, colou ela no banco do passageiro, ela se sentou calmamente e ele seguiu para o pet shop, que ficava na rua de seu prédio. Comprou guia, brinquedos, ração, uma caminha, tapetes higiênicos e alguns aperitivos para mimar a nova cadelinha. 

Quando chegou no apartamento soltou ela no chão e ela caminhou reconhecendo o ambiente, ele colocou os tapetes higiênicos na lavanderia e disse que era ali que ela deveria fazer suas necessidades, ela o ouviu com atenção e como se para demonstrar que havia entendido foi até lá e urinou, ele elogiou e acariciou suas orelhas, lhe deu um petisco como recompensa e ela aproveitou o carinho.

Resolveu chamá-la de Lady porque era extremamente bem educada. Daquele dia em diante, Lady se tornou a melhor amiga dele, estava sempre esperando por ele quando chegava do trabalho, dormia com ele e era um doce de tão educada, fazendo as necessidades no lugar certo, não era barulhenta, nem estragava as coisas, tudo ia bem até que ele precisou da certidão de adoção dela, para levar com ele em uma consulta de Lady no veterinário, olhou por alto se tinha ali as informações que precisava e uma informação lhe chamou a atenção, a data de nascimento de Lady era a mesma do dia em que Patrícia morreu no acidente, seus olhos se encheram de lágrimas ao lembrar do telefonema daquela noite.

- Vamos nos encontrar novamente?
- Não como você espera..

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