A Porta




A infância é uma fase interessante, não é mesmo? As pessoas querem muito, ter boas histórias para contar quando são crianças, querem ver o mundo brilhar de um modo especial, deve ser por isso que os olhos das crianças brilham mais.

Luís tem 34 anos de idade, é um cara que deu certo na vida, ele mora em um bom lugar, tem um carro razoável, um bom emprego e um monte de amigos simpáticos, com quem sai para tomar umas cervejas nos fins de semana, ele é uma pessoa de classe média, com um vida média, nem mais nem menos, apenas o comum, aquelas vidas que de tão normais não fazem os olhos brilharem, ele é um adulto, pura e simplesmente, sabe que o tempo de criança se foi já tem muito tempo e que voltar para lá é socialmente impossível, mas o que ele não sabe, é que a vida prega suas peças a todo momento e que ele terá sua dose em breve.

Ele acordou cedo naquela manhã, era um dia normal, tomou seu café com leite e canela, comeu seu costumeiro pão, com manteiga, queijo e presunto, tomou um banho e se arrumou para o trabalho, pegou o carro e partiu para mais um dia normal, em sua vida normal. O dia correu bem, mas na saída o carro resolveu que não ia ligar, chamou o guincho e em 20 minutos o carro foi rebocado para a oficina, sem opção, pegou o ônibus. Infelizmente, (ou felizmente) não tinha a menor ideia de que ônibus tomar, pegou um que achou ser o que passaria perto de sua casa, mas se enganou e quando percebeu, estava seguindo para longe de onde queria ir, puxou a campainha e desceu, decidiu que dali iria a pé mesmo, não era tão longe de casa afinal, calculou que 30 minutos de caminhada, em passos cadenciados, seriam suficientes para que chegasse em casa, a tempo de assistir ao jornal da noite.

Caminhou, mas ao virar uma esquina percebeu uma porta, ela era escura e velha, com uma espécie de folhagem, dando a ela um charme rupestre. Ele estranhou a porta, estava em um bairro moderno, com casas de estilos arquitetônicos contemporâneos, mas a porta parecia ter mil anos de idade, ela era estranha, como se não fizesse parte da paisagem, como uma daquelas figurinhas que se coloca em fotos, para ficarem divertidas nas redes sociais, mas mesmo assim ela estava ali e, aparentemente, ninguém notava ela, mas Luís a viu e seus olhos brilharam, como se tivesse visto um neon gigante em volta da velha porta. Ele chegou perto e nela havia uma placa, estava escrito “VOLTE A SER CRIANÇA”, ele estranhou a inscrição e passou longos minutos olhando para a porta, ela o havia hipnotizado de alguma forma, tocou a madeira, sua curiosidade crescendo, pensando no que encontraria, se girasse a maçaneta e entrasse pela porta. 

Tocou a maçaneta, girou e ela se abriu, fascinado nem se importou, entrou, deveria estar invadindo a propriedade de alguém, mas ele estava envolto em névoa na hora, tais pensamentos não lhe ocorriam, a promessa da porta era real, ele esquecera das preocupações de adulto e estava agindo feito uma criança encantada com um mistério.

Do outro lado ele viu uma sala, achou familiar, de algum modo parecia que ele já vira a sala, com os sofá marrom e um enorme xale de crochê azul o cobrindo, a mesa de centro, os bibelôs e velha televisão. Então percebeu, a boca se abriu em espanto ao ver a mulher que vinha em sua direção, o rosto bondoso, as sardas do nariz, os cabelos escuros com fios brancos começando a surgir, ela vestia uma saia azul que terminava pouco abaixo dos joelhos, uma blusa branca de malha, gasta devido ao apego que tinha, a pele começando a enrugar, devia ter uns 55 anos, uma senhora em um dia normal, ela tinha um jarro de água nas mãos e sobre a mesa havia um ramalhete de flores do campo coloridas, ela começou a colocar as flores no jarro, completamente alheia ao homem atônito que a olhava.

- Vó, sou eu Luís, vó! – ele disse tentando chamar a atenção dela, mas ela não parecia ouvir.

Cantarolava uma musiquinha alegre, ele se lembrava de sempre ouvi-la cantarolar aquela música, mas ela não podia ouvir ele ali, porque ela simplesmente não estava ali, aquela sala não podia ser real, mas era, a sala dela, tinha o cheirinho de coisa velha como ele costumava dizer, e ela estava ali em sua frente, colocando suas flores no jarro, as flores que ele mesmo lhe dera, podia ver o cartão ao lado das flores na estante, um cartão bobo e infantil, que ele pintara e escrevera “Te amo vovozinha linda do meu coração, que papai do céu lhe dê muitos aniversários”, mas papai do céu esquecera seu pedido na gaveta, porque aquele foi seu último aniversário, ela teve pneumonia naquele inverno, e uma parada respiratória a levara, ela tinha 57 anos e não 55 como ele se pensou quando a viu, ele tinha 5, já faziam quase 30 anos que ele lhe dera aquelas flores e aquele cartão. 

Ele sentiu a primeira lágrima cair, ela lhe contava histórias, ela ficava em casa com ele nos dias que sua mãe precisava sair para fazer compras ou pagar as contas no centro da cidade, ela fazia a melhor pipoca do mundo e sempre deixava ele repetir a sobremesa, era a vovozinha querida, mas ela morreu, e ele não teve a oportunidade de lhe dar seu novo cartão e as novas flores. 

De repente aquele dia voltou a ele, a mãe o levara para escolher algo para que ele desse a vovó, ele se apaixonou pelas flores, disse que eram perfeitas e ela as comprou, ele fez um cartão, a mãe o ajudara com as palavras e ele lhe deu com todo amor infantil que tinha. Quando ela viu as flores, ficou muito feliz e lhe deu um beijo no alto da cabeça.

Tentou tocá-la, sentir sua mão nos cabelos dela, queria abraça-la, queria que ela lhe fizesse pipocas, queria estar com ela, queria que ela estivesse ali de verdade. 

As lágrimas estavam descontroladas agora e ele começou a soluçar, as lembranças voltavam como uma torrente, ele se viu no hospital visitando ela, o rosto pálido, a voz pastosa, porém carinhosa, lhe dizendo para ser um bom garoto e para que obedecesse sua mãe. Nunca se despediu dela, nunca pode dizer adeus, era tão criança e não sabia, mesmo que tivessem lhe contado que nunca mais a  veria, que nunca ouviria sua voz de novo, os soluços ficaram piores e então o impossível, ou melhor, o ainda mais impossível, aconteceu, ela se virou e disse:

- Oh meu rapaz, por que está chorando? – o olhar dela era lindo, como um sonho bom e ele chorou ainda mais.

- Não chore, por favor, é de partir o coração. – ela parecia pesarosa.

- D... D...Des... Desculpe, é que... estou... tão triste... – conseguiu dizer entre os soluços.
- Triste por quê? – Perguntou ela.

Então ela abriu um sorriso largo, o seu melhor sorriso, aquele do qual ele se lembraria para sempre.

-Luís, não chore, eu tive que partir.  

- Vó, eu te amava vó, eu nunca te disse adeus... – ele baixou os olhos envergonhado.

De repente ela estava do seu lado, tinha cheiro de lavanda, sua loção preferida.

- Você não tinha como saber querido, não foi culpa sua, você era pequeno, não chore por isso.

- Sinto sua falta vó, sempre senti, queria que tivesse vivido para me ver crescer.

- Eu te vi crescer Luís, das estrelinhas do céu, você se lembra?

Ele levou alguns momentos para se lembrar, mas se lembrou, ele tinha 4 anos, e ela tinha lido uma história para ele em que o rei morria, ele lhe perguntou, para onde as pessoas iam quando morriam e ela lhe explicara, que as pessoas que amamos vão para o céu e lá, elas viram uma estrelinha que cuida de você por toda a vida, ele ficou muito satisfeito com a explicação e acreditou naquilo, com sua inocência de criança.

- Eu estive com você querido, eu sempre estarei viva no seu coração. – ela sorriu, ele sorriu de volta, mesmo com o rosto banhado de lágrimas.

- Obrigado vovó. – disse.

Ela o abraçou e ele sentiu a melhor paz que já experimentou, de olhos fechados envolvendo ela em um abraço aconchegante, quando abriu os olhos estava na cama de casa, eram 6h da manhã, tudo não passara de um sonho, ficou um pouco desolado, queria que fosse real, que tivesse visto ela, quando saiu de casa o carro estava na garagem como sempre e ele foi trabalhar, mas naquele dia o carro quebrou na saída do trabalho, o guincho chegou 20 minutos depois e ele pegou o ônibus, desceu no mesmo ponto como um déjà vu, mas andando naquela mesma rua, a porta não estava lá, desta vez Luís chegou em casa, triste, porque a vida real era monótona e no seu sonho, ele era como uma criança que revira a vó amada, jantou como sempre e foi se deitar, mas ao tirar a calça percebeu algo no bolso, tirou sentiu a lágrima solitária de gratidão correr pela face, era um cartão infantil, escrito “Te amo vovozinha linda do meu coração, que papai do céu lhe dê muitos aniversários”, cheirou, tinha cheirinho de lavanda.


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